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HISTÓRICO

A companhia Les Trois Clés desenvolve, desde o seu primeiro trabalho, Silêncio (2006), uma pesquisa em que dialogam o animado e o inanimado, o ator e o boneco, numa escrita cênica sutil, ritmada e alimentada pela música, quase sempre tocada ao vivo. Com um título mais que sugestivo, esse primeiro trabalho, ainda que partisse de um texto dramático, transpunha em gesto, movimento, som e imagem o peso e a poesia da linguagem tão singular de Federico García Lorca e sua Casa de Bernarda Alba.

A ordem inexorável da protagonista Bernarda Alba – “Silêncio! (…) Havemos de nos afogar em um mar de luto. (…) Ouviram-me?! Silêncio!” – torna-se aqui o texto e o pretexto do trabalho dos atores-acrobatas-manipuladores, ao mesmo tempo a base sobre a qual se ergue o espetáculo. Assim, marionetes em tamanho natural contracenam com acrobatas pendurados em tecidos, numa sutil dramaturgia musical para contar sem palavras, para dizer o indizível.

Os trabalhos seguintes, La Gigantéa (2008) – em parceria com a Anistia Internacional – e Macondo (2010), exploram outros estímulos poéticos, mas sempre na continuidade, desenvolvimento e aprimoramento de uma dramaturgia musical e visual, bases de uma linguagem construída além das palavras.

Em seu teatro de formas animadas, onde circo, música, bonecos e objetos dos mais variados tecem juntos a trama da cena, o grupo recoloca em questão o ofício, a técnica e a importância do ator no jogo cênico. Como nos teatros de Gordon Craig e Tadeusz Kantor, partimos do boneco/marionete, para desenhar e transcender o jogo do artista de carne e osso: o boneco como modelo para o ator. A marionete, metáfora da morte (única habitante possível daquele corpo frio e inanimado) seria, seguindo Kantor, o único meio de representar a vida no teatro.

A música é um outro elemento indispensável à construção dramatúrgica de nossas criações. Executada quase sempre ao vivo, ela é a base rítmica e a pulsação sobre a qual se sustentam o conjunto; ao mesmo tempo em que intensifica a ação, a música abre múltiplas possibilidades emotivas e cognitivas. Assim, a dupla interação ator/músico e imagem/som constróem a trama poética do espetáculo.

Em 2013, é novamente em García Lorca que fomos buscar a inspiração para esse novo trabalho. Não mais na Espanha, mas nos Estados Unidos, à época do cinema mudo. Não em uma obra tão conhecida e celebrada quanto A Casa de Bernarda Alba, mas em um pequeno texto, pouco encenado e ainda ignorado pela maior parte do público: El paseo de Buster Keaton. Reinventando a língua do poeta andaluz, o espetáculo parte da figura central e emblemática de Buster Keaton e o faz dialogar, em seu “passeio”, com os universos de Samuel Beckett, Vic Muniz, Estamira (heroína real do filme de Marcos Prado) e tantos outros elementos que convergem em uma poética da finitude, da exclusão e da velhice, da vida que se reinventa a partir do lixo e dos escombros.